[Crítica] Stranger Things

19:04

É unânime o sucesso da Netflix em todo mundo. Mas desde o último dia 15 de julho, a provedora de filmes via streaming vem abalando a internet com a estreia de sua nova série original, Stranger Things.


A trama é ambientada em Montauk e narra o misterioso desaparecimento de Will. Enquanto a polícia, familiares e amigos começam uma acirrada corrida contra o tempo para reencontrá-lo, fazendo jus ao título, coisas estranhas começam a acontecer. A história torna-se uma teia cheia de mistério com envolvimento de experimentos científicos governamentais, elementos sobrenaturais e o surgimento de uma garotinha realmente estranha.

Não é novidade para ninguém que a Netflix revolucionou o mercado de produção de séries para a televisão. Fazendo totalmente o oposto que os estúdios convencionais, onde após a aprovação do roteiro a série passa um período se adaptando ao estúdio, as séries produzidas pela Netflix são consideradas originais, pois não há essa interferência, ou seja, se o roteiro for aprovado, a história passará a ser produzida sem qualquer intervenção para adaptação ao estúdio. Outro diferencial da provedora, é que não mede sua audiência e não prende os espectadores na sua programação segurando os episódios, a empresa libera toda a temporada para ser assistida quando e quantas vezes quiser.

Apenas esses fatores já evidenciam a qualidade do material produzido pela Netflix, mas há outros elementos que legitimam todo o sucesso que Stranger Things está fazendo mundo à fora.

Inicialmente, o roteiro. O enredo sustenta o que se propôs a oferecer. A trama carrega o suspense, o mistério e, em alguns momentos, até mesmo o terror em doses exemplares. Nos quatro primeiros capítulos, vemos, basicamente, quatro núcleos que, separadamente, vão montando o mesmo quebra-cabeças e nos cedendo informações para nos levar a solução do mistério. O roteiro trabalha muito bem como as informações serão cedidas ao espectador, seja por meio de um flashback, um dado da investigação policial, num diálogo entre os personagens ou por meio de ações sobrenaturais. Ele carrega toda a tensão e estimula a curiosidade ao espectador que a todo momento busca que a trama faça sentido. Outro elemento fenomenal do roteiro é a forma com que esses núcleos se interligam e as informações se reúnem para um desfecho que extingue qualquer dúvida e não deixa nenhuma ponta solta. Mas, isso não isenta essa primeira temporada de ter um final aberto, cheio de questões ainda a serem resolvidas e instigar a espera por uma segunda temporada já confirmada.

As interpretações são fantásticas, seria impossível não mencionar cada uma, então vamos por núcleos:

Os familiares de Will

Joice, interpretada por Winona Ryder, não deixa a desejar em nada! A todo momento você vê uma mãe desesperada em busca do filho desaparecido, que tem sua sanidade mental colocada em xeque a cada instante, que faz qualquer coisa para reencontrá-lo, inclusive se comunicar com forças sobrenaturais. Jonathan, o irmão mais velho, vivido por Charlie Heaton, é um garoto sozinho, apaixonado por fotografia, que assumiu o papel de protetor da família. A interação entre ele e Joice quando Will desaparece é palpável, os problemas familiares vividos entre eles e o pai dos garotos ficam subentendidos e não é necessário o enredo nos contar o que aconteceu para entendermos os efeitos deles na vida de Jonathan. O único problema que possa ser encontrado nesse personagem é o clichê do garoto que é estranho, não interage com ninguém no colégio, não possui amigos e acaba se envolvendo com a namorada do garoto popular.

Jonathan e Joyce

A Polícia

David Harbour deu vida à Hopper, o xerife de Mountauk. A interpretação é excelente, a carga dramática é utilizada na medida certa e o personagem tem seu charme, porém não conquista, novamente há o problema de clichê aqui. Hopper é aquele clássico herói que precisa superar ou reparar algum trauma do passado, no caso do xerife, ele não consegue superar a perda da filha para o câncer. Isso faz com que o personagem não atraia a atenção tanto quanto o enredo se propõe e faz com que as interações nos outros núcleos da série sejam até mesmo mais cativantes.

Xerife Hopper

Os amigos de Will

Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) são as grandes revelações da série. Um trio muito diferente, mas que se sincroniza muito bem e é inevitável acreditar na amizade desse grupo. Com personalidades bem diferentes, os três garotos e Will formam um time de meninos superdotados, campeões de campeonatos de física, que sofrem bullying no colégio e são as fontes de referências de outras obras e sucessos na série. Mas se os três garotos são as grandes revelações, Eleven (Millie Bobby Brown) é a estrela de toda a trama. Estranha e desconfiada, a garota aparece misteriosamente na cidade, sendo abrigada por Mike. Millie esbanja talento, é incrivelmente expressiva e apresenta Eleven de forma pura e verdadeira sendo impossível não se encantar com ela. Ver os quatro atuando juntos é fascinante, descobrindo sentimentos, organizando grupos de buscas, investigando acontecimentos estranhos, ensinando conceitos como amizade, lealdade e amor. Mike, Eleven, Lucas e Dustin roubaram a cena, sem sombra de dúvidas.

Da esquerda para a direita: Lucas, Dustin, Mike e Eleven
Já Natalia Dyer interpreta Nancy, irmã mais velha de Mike. E, ao contrário dos personagens Jonathan e Hooper, ela quebra muitos clichês. Ela é toda certinha, perfeita e estudiosa. Sua melhor amiga, Barbara (ain, gente quase surtei quando vi que ela tinha meu nome HAHAHA) não se encaixa nos padrões de beleza, e ainda assim, Nancy namora o popular Steve. E detalhe, eles namoram porque se gostam de verdade, quebrando aquele estereótipo de que a menina “estranha” tem que se transformar para que tenha uma chance do garoto se apaixonar. Natalia sustenta muito bem o papel de adolescente em transformação, confusa em ser quem realmente é ou fazer coisas que não está acostumada a fazer para agradar alguém. Apesar dela no início ser aquela típica adolescente irritante, ela acaba mostrando todo seu charme e fazendo você repensar quem é Nancy de verdade.

Nancy

Os vilões

Matthew Modine é o Dr. Martin Brenner, talvez ele seja o maior problema da série. Mesmo levando em conta que o enredo é uma homenagem à década de 80 e o clichê do vilão que faz qualquer coisa para alcançar seus objetivos sendo a marca registrada da época (a máxima “os fins justificam os meios” é bem empregada aqui), ele não convence como vilão. E não pela interpretação, mas pela forma que o personagem é construído, Modine faz tudo o que pode para convencer o público de que a presença dele em cena precede que algo ruim aconteça, mas o próprio enredo anula essa premissa, fazendo com que o vilão, seja apenas alguém atrapalhando os pequenos heróis de Will.
 
O grande vilão da série mesmo fica à cargo da criatura interdimensional que os pequenos chamam de Demogorgon, nome do príncipe dos demônios do RPG Dungeons & Dragons que os meninos jogam no primeiro capítulo da série. Esse sim prende toda a atenção de quem assiste, deixando aquele frio e apreensão quando os sinais de que ele se aproxima começam a aparecer. Essa criatura funciona, pois há todo um mistério sobre ela: Aparentemente, não possui rosto. De onde vem? Como é atraída? Como exterminá-la? É um conjunto que deixa o espectador absolutamente sem fôlego.

Dr. Martin Brenner
Como uma exaltação aos anos 80, a série é uma verdadeira onda nostálgica para muita gente. Figurinos, cenários e fotografia fazem você mergulhar na década. Várias referências e elementos dão legitimidade à essa exaltação como, por exemplo, a menção da estreia de Poltergeist – O fenômeno no cinema, a citação da “ameaça comunista” remetendo à guerra fria, o próprio jogo Dungeons & Dragons que foi sucesso na época, as fitas K7 que Jonathan grava para o irmão mais novo e o laboratório de revelação fotográfica.
 
A trilha sonora é excelente, irretocável e outro elemento nostálgico. Should I Stay or Should I Go, da banda The Clash é a música mais marcante da série. Outros sons que você irá encontrar são: Heroes (Peter Gabriel), She Has Funny Cars (Jefferson Airplane), I Melt With You (Modern English), entre outros clássicos da década. Uma das cenas mais bem elaboradas da temporada tem como trilha sonora Hazy Shade of Winter (The Bangles), a sequência intercala duas cenas, uma ação acontecendo simultaneamente à outra e criando-se assim uma metalinguagem, a música de estilo pop-rock eleva à níveis catastróficos a genialidade da montagem e construção da sequência.
 
Por último, mas não menos importante, outro toque de mestre da série são as referências da cultura “nerd”, elas estão inseridas em pequenos detalhes ou até mesmo explicitamente, por exemplo, a menção de "Senhor dos Anéis" e "O Hobbit" por Lucas e Dustin, uma sutil referência ao filme "E.T., O extraterrestre" quando os amigos saem de bicicleta pela noite, o mundo invertido pode ser parecido com o mundo alternativo de "Silent Hill", Elevan nos faz dar uma boa relembrada na menina de "A experiência", sem falar nas referências feitas à "Alien", "Carrie, a estranha" e tantos outros clássicos. Stranger Things é aquele tipo de série que toda vez que assistimos, sempre encontraremos uma referência nova para acrescentar à lista.

Poster oficial da série
Não há como resistir à força desse furacão, Stranger Things veio arrastando todos pela frente, de saudosos de décadas passadas até mesmo adolescentes de hoje que já cresceram na era da tecnologia e não conheceram nem 10% dos elementos mostrados na série. Um enredo cativante, um típico thriller dos anos 80, trilha sonora indescritível, cenário e fotografia reafirmando toda a carga nostálgica da série e um elenco impressionantemente cativante e, apesar de alguns problemas com os personagens, que funciona com um sincronismo sem igual. Mais do que nunca, a Netflix mostrou para o que realmente veio!





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7 comentários

  1. Nossa, a melhor crítica que eu já li até agora!
    ST é a melhor série da Netflix sem a menor dúvida!
    Parabéns pelo post, super completo!
    #ChegaSeason2
    Um beijo, www.josya.com.br

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  2. Nossa! Adorei a crítica eu já tentei assistir essa série antes, não consegui passar nem da metade do primeiro episódio rsrs, me deu uma pequena dose de medo (normal né? Rsrs). Sucesso no blog


    Beijos ;*

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  3. Se tem uma coisa que eu não consigo é suspense.. Mas nessa resenha me despertou um interesse tão grande em assistir, pelo simples fato de um personagem tímido se envolver com uma popular kkkk Arrasou!!

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  4. Que crítica é essa Senhooorrr!!!!
    Graças a você vou assistir.
    Não é atoa que a Netflix é a melhor coisa que existe.

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  5. Não é muito meu estilo de filme, mas adorei sua explicação sobre, parabéns

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  6. Como eu queria ter Netflix, sou a única que não tenho, já quero assistir!

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  7. De forma interessante, os irmãos Matt e Ross Duffer, criadores da série e diretores dos dois primeiros e dois últimos episódios da temporada, optaram por inserir uma cena de abertura com personagens novos, o que acaba sendo um choque para o espectador, que esperarava reencontrar de cara as queridas crianças. Desde que vi o elenco de Stranger Things imaginei que seria uma grande produção, já que tem a participação de atores muito reconhecidos, Pessoalmente eu irei ver por causo do actor Charlie Heaton, um ator muito comprometido (Acabei de ver os Filmes de Charlie Heaton para uma tarde de lazer é uma boa opção.), além disso, acho que ele é muito bonito e de bom estilo. Não posso esperar para ver a nova temporada, estou ansiosa.

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