[CinematekaDaFani] Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)

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Citação favorita da Fani

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Clementine: Você me conhece, eu sou impulsiva.
Joel: É isso que eu amo em você.

E se você pudesse apagar memórias como um método cirúrgico? E se você pudesse, simplesmente, tirar alguém da sua vida, como se você nunca a tivesse conhecido? E se aquele antigo amor, que você não consegue esquecer, sumisse da sua cabeça do dia para a noite? Em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) isso é possível. E um término de namoro é superado em questão de horas.


Sinopse:

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.
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Felizes são os esquecidos, pois eles tiram o melhor proveito dos seus equívocos”. Essa frase de Nietzsche resume, perfeitamente, o longa dirigido por Michel Gondry. A construção do roteiro de Charlie Kaufman trabalha a premissa do esquecimento para consertar o que é considerado erro na vida de uma pessoa, no caso um relacionamento que se acabou.

No entanto, o filme torna-se uma reflexão sobre as relações amorosas que vivemos e como lidamos com elas através de nossas lembranças afetivas. O longa começa quando Joel e Clementine, aparentemente, se conhecem em um vagão de trem no dia dos namorados. Eles começam a se relacionar e entende-se que houve um rompimento. Joel, ainda apaixonado, tenta reconquistar a ex-namorada, mas esta age de forma estranha, como se ela não o conhecesse mais.

Clementine e Joel
Conversando com um casal de amigos sobre o que deveria fazer para reconquistar Clementine, Joel acaba descobrindo que a garota se submeteu a um procedimento para esquecê-lo. Com raiva e irritado, pois ainda estava preso a uma relação que não tinha mais salvação, Joel decide passar pelo mesmo procedimento para poder esquecê-la e seguir em frente.

A partir desse ponto, toda a trama começa a se desenrolar dentro da mente de Joel, enquanto ele passa pelo procedimento de esquecimento, intercalando com a interação dos profissionais, fora da mente de Joel, que estão executando o procedimento. Esse segundo ato do filme é o que dá um verdadeiro “nó” na nossa mente, que só será desatado na conclusão de tudo, amarrando cada ponta do enredo.

Enquanto o procedimento é realizado, as lembranças de Joel vão mostrando a vida do casal e conforme o protagonista passa das lembranças mais dolorosas para as mais felizes ele desiste de esquecer Clementine. Outro ponto chave para absorver a mensagem do longa são as cenas de interação entre os técnicos da clínica Lacuna, responsável pela execução da eliminação de memórias.

Patrick é técnico da clínica e está encarregado de ir até a residência do paciente para auxiliar Stan, outro técnico, no procedimento. Quando Patrick realiza o processo em Clementine ele se apaixona pela garota, aproveitando que o próprio Joel procura a clínica para realizar o mesmo processo, ele rouba as coisas relacionadas sobre a vida do casal e acaba assumindo a personalidade de Joel para seduzir Clementine.

Kate Winslet e Jim Carrey
Stan tem um relacionamento amoroso com Mary, a secretária da clínica. Porém a garota parece ter uma espécie de obsessão por Howard, o médico responsável pela Lacuna. A história desse triângulo amoroso será decisiva para o esclarecimento dos acontecimentos da trama.

A trilha sonora e a fotografia unem-se para sustentar a delicadeza e doçura com que a história nos é contada. O elenco é espetacular, é mais um ponto chave que serve para legitimar a excelência da produção. Tendo no papel principal ninguém menos que Jim Carrey. Isso mesmo, Jim Carrey em um papel dramático, mostrando todo o seu talento como ator, encarnando com maestria a figura de alguém depressivo, desesperado, confuso, brilhando em cena como Joel. Seu par romântico está a cargo de Kate Winslet que dá vida à Clementine. Winslet consegue transpassar toda a confusão de alguém que não sabe o que está errado, mas sente que há algo incomum, a desilusão de uma mulher que está vivendo um relacionamento em ruínas, de uma garota que só quer encontrar o seu lugar no mundo.

E não para por aí, o longa é recheado de pesos-pesados, como Elijah Wood interpretando Patrick, Kristen Dunst no papel de Mary, Mark Rufallo encarnando Stan, entre outros grandes nomes do cinema. Nenhum dos atores deixam a desejar em suas atuações e quando num primeiro momento achamos que eles serão personagens secundários, eles passam a ser uma parte fundamental para o desenrolar da trama.

À cima, Elijah Wood; á esquerda, Kristen Dunst e á direita, Mark Rufallo
O roteiro é elaborado de forma não-linear e dá uma sensação de perda de informação, mas isso é proposital para o clímax do longa. É necessário o máximo de atenção em todos os detalhes, eles serão importantes para conectar toda a história. A construção do enredo é bem trabalhada, ela consegue trazer para o romance toda uma carga dramática e entrelaçar com um “quê” de ficção científica. Não foi por menos que o filme foi contemplado com o Oscar de Melhor Roteiro Original.

A metáfora empregada pelo roteirista tem uma genialidade indiscutível. O longa nos estimula a analisar nossos relacionamentos, como reagimos à rotina, como depois de algum tempo passamos a enxergar os defeitos um do outro, como a falta de diálogo pode distanciar. Nos faz perceber que no momento em que estamos descontentes, as lembranças ruins tendem a tomar conta de nossos pensamentos e nos levam a acreditar que aquela relação não tem sentido ou tomar decisões por impulso, como Clementine quando decidiu esquecer Joel. Mas que o exercício de buscarmos os momentos de felicidade, os sorrisos simples e compartilhados e ações que nos levaram a nos apaixonarmos por uma pessoa, sempre despertará aquele amor de antes. Esse aspecto é notável quando Joel começa a ter as lembranças felizes com Clementine apagadas e, depois de recordá-las e redescobrir a ex-namorada, seu subconsciente desiste de esquecê-la criando um método para burlar o processo.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças” é mais do que um filme romântico dramático com uma pitadinha de ficção científica, ele é uma crítica aos relacionamentos modernos, as relações estabelecidas. Mas ele não deixa de legitimar uma premissa fundamental sobre o amor: Não importa quantas vezes você redescubra ou conheça uma pessoa. Se ela for seu amor verdadeiro, ele sempre irá acontecer.






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