[Artigo] Todos deveriam conhecer Lili Elbe

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Há algum tempo atrás eu precisei assistir "A Garota Dinamarquesa". E agora, depois de digerir tudo aquilo e de pesquisar mais, nós precisamos conversar sobre Lili Elbe.

Lili Elbe
Eu não quero fazer aqui uma resenha sobre o longa indicado ao Oscar e expor as impressões sobre os elementos que acredito que tenham funcionado ou não na narrativa do filme. Minha pretensão não chega a esse patamar. Independente disso, eu quero usar esse espaço para discorrer sobre como Lili Elbe tocou tão profundamente em mim.

É válido apontar que as questões de gênero estão cada vez mais em voga atualmente. Que o debate tem sido levantado, seguindo os avanços da ciência e da luta pelos direitos das minorias, e lentamente o assunto vem saindo da zona de tabu para ser aberto o diálogo mais consciente e profundo em uma sociedade mais globalizada. Porém, não pode ser deixado de apontar, também, que no Brasil, particularmente, apesar de todo o diálogo que defensores das causas de direitos humanos e das minorias vêm levantando, há forte resistência da vertente religiosa e conservadora da sociedade quanto ao tema, afinal "Deus fez Adão e Eva, um homem e uma mulher".

Á esquerda, Einar Wegener e á direita, Lili Elbe
É nesse cenário que conhecemos (alguns, revisitam) Lili Elbe, que nasceu Einar Mogens Wegener. Ela foi a pioneira transsexual que se submeteu a cirurgia de redesignação sexual ou apenas "mudança de sexo" mesmo. Muitos se perguntaram: ok, mas o que isso tem de mais?

Lili Elbe passou por todo o processo de aceitação e por uma série de cirurgias (sendo mais exata, cinco) para completar sua transição há quase cem anos atrás. Ela passou mais da metade de sua vida vivendo como homem e ganhou notoriedade, antes das cirurgias, por seu talento como pintor, pois abandonou a carreira após a transição. Ela dizia que o pintor era Einar e não ela.

Á esquerda, Gerda Wegener e á direita, Einar Wegener
Após sair da Clínica Feminina Municipal de Dresden, Lili tentou manter sua privacidade, mas foi sucumbida com os vazamentos das noticias de suas cirurgias pela mídia. Então, ela decidiu dar uma entrevista a um jornalista dinamarquês e se assumir uma mulher trans. Nessa entrevista, Elbe conta como foi seu processo de aceitação, o papel de Gerda Wegener, na época esposa de Einar, nesse processo e como a arte a fez entender e formou sua visão de si mesma.

No domingo em que assisti o longa, ao conhecer Lili mais intimamente, foi inevitável resistir a história comovente dessa mulher: Corajosa para o seu tempo, para o momento em que iniciou toda essa jornada, no caso, estando casada na época e em uma Europa entre guerras, conservadora e machista. Alguém que buscou saber quem era independente de qualquer coisa e sua importância para o movimento LGBT.

Mas, como meu primeiro contato com sua história foi pelo filme indicado ao Oscar e ele trabalha a história de Lili por intermédio de suas emoções segundo as suas relações, eu conheci uma outra protagonista dessa história e aprendi a admirá-la: A esposa de Einar, Gerda. Será ela a desencadeadora do processo de aceitação de Elbe, já que uma tarde não consegue uma modelo para fazer uma ilustração e pede, então, ao atual marido para que se vista de mulher e pouse para ela. É nesse momento que Einar começa a tomar consciência da existência de Lili. E ela passa a dominar seu corpo e sua mente.

Cena do filme "A Garota Dinamarquesa", 2015
Como não admirar uma mulher que viu seu marido começar a rejeitar a própria estética? Não vê-la mais como sua esposa, mas alguém que ele ama de modo que chega até ser fraternal? Uma mulher que, assim como a própria Lili, não entendia o que estava acontecendo, mas procurou aceitar e ajudá-la de todas as maneiras possíveis, até mesmo estando do seu lado e cuidando dela durante os processos de recuperações entre uma cirurgia e outra?

Entretanto, por trás de todo o encantamento, vemos duas mulheres passando por uma situação confusa e cada uma absorve de uma maneira diferente. Lili também chega a ser egoísta, manipuladora e até machista. Já Gerda, há horas em que entende que deve ajudar Lili a se encontrar, mas em outras ela tem rompantes de paixão por Einar e implora para que Lili deixe o corpo do marido ou que pare com aquele comportamento e volte a ser como era antes.

Em contrapartida, eu sou obrigada a acreditar que Gerda conseguia enxergar Lili através da aparêcia masculina de Einar. Quando Lili apareceu em meio a intimidade entre ela e o marido, Gerda abriu as portas como uma verdadeira anfitriã e a recebeu como uma antiga conhecida, como se ela sempre tivesse consciência que Lili estava lá, esperando o momento para se libertar. Tanto acredito nisso, que é só olhar para as pinturas que Gerda fez de Lili para identificar a intensidade com que ela desenhava seus olhos, os movimentos, a desenvoltura e desinibição, com expressões que poderiam ter diversos significados e as cores vivas.

Os quadro de Gerda Weneger retratando Lili

Lili foi a exceção a uma regra que vemos hoje em dia. Ela teve a sorte, de mesmo em um tempo mais intolerante que o nosso, de encontrar amigos que a apoiaram e tentaram manter a naturalidade diante de uma situação que nem a própria Lili entendia, de ter uma mulher inteligente, segura, apaixonada e devota ao seu lado, que a apoiou e foi essencial para sua aceitação e um médico brilhante que enxergou uma mulher presa em um corpo masculino, e não um esquizofrênico ou pervertido como tantos outros a diagnosticaram.

Mais do que uma simples história, A Garota Dinamarquesa me fez pensar em quem sou, no quanto me conheço, como eu me vejo e como eu me sinto em relação a como eu me percebo. Ela me fez entender a urgência que se faz necessária em falarmos e entendermos as questões de gênero. Me fez abrir os olhos para enxergar uma realidade que poucos vêem e menos ainda a compreendem. Lili me instigou a refletir sobre quem eu quero me tornar ou como sou percebida em relação aos outros.

Chegou o momento de nos despirmos de nossas ideologias e falsos moralismos para compreendermos a história de Lili Elbe como uma história de identidade, de amor próprio, respeito por si mesmo. Olhar para seu relato e ter a sensibilidade de se inspirar para sermos nós mesmos, independente de orientação sexual ou identidade de gênero. Crença, raça, cultura, opiniões alheias e época. Apesar de Lili negar o talento para a pintura, achando que o pintor era o estado masculino em que nasceu, ela foi uma artista tão incrível quanto Gerda Wagener. Gerda explorou toda a liberdade de Lili em suas telas e fascinou e fascina até hoje gerações. Mas Lili fez a mais difícil das obras, criar a si mesma, tornar-se livre e dizer a todos quem ela realmente era.


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