#CinematekaDaFani: Cinderela (Cinderella, 1950)

04:29


Citação favorita da Fani:


video

Fada Madrinha: Mas, como nos sonhos, receio que não possa durar muito.
Dançará até meia-noite.
Cinderela: Meia-noite? Oh, obrigada!
Fada Madrinha: Oh, não, preste atenção, meu bem: ao soar das doze, a magia
cessará e tudo o que era antes voltará.

Como qualquer menina, eu cresci lendo e ouvindo histórias de conto de fadas. E mesmo depois de crescidinha eu ainda sou apaixonada por elas, por essa visão inocente do mundo. Então, ver o segundo filme da lista da Fani não foi nenhuma novidade para mim e devo admitir que também é um dos que não poderia faltar na minha lista de "filmes para assistir quando precisar esquecer o mundo real". Sim, eu estou falando de um clássico da Disney. Sim, eu estou falando de um filme de princesa. E, finalmente, sim, eu estou falando de "Cinderela" (Cinderella, 1950).


Sinopse:

Cinderela (Ilene Woods/ Simone de Morais) vive com sua madrasta, Lady Tremaine (Eleanor Audley/ Tina Vita), e as duas filhas dela. Obrigada a trabalhar como empregada da casa, ela tem como amigos apenas os animais que a rodeiam. O local em que vive está agitado devido ao baile que será realizado no castelo, o qual contará com a presença do príncipe (William Phipps/ Jorge Goulart). Como Lady Tremaine pretende que uma das filhas se case com ele, elas se preparam com requinte para o evento. Cinderela, entretanto, não pode ir. Até que surge a Fada-madrinha (Verna Felton/ Maria Helena Pader), que dá a Cinderela um vestido e condições para que possa ir ao baile em alto estilo. Entretanto há uma condição: Cinderela precisa retornar antes da meia-noite, caso contrário o feitiço será desfeito.
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A autora Paula Pimenta abre o segundo capítulo de "Fazendo Meu Filme 1 - A estréia de Fani" com uma citação do primeiro longa de animação da Disney, após o lançamento de Bambi, em 1942. Devido a segunda guerra mundial, o estúdio Disney foi obrigado a produzir filmes para motivar as tropas do exercito, seguido dos fracassos de Pinóquio, Fantasia e Bambi, portanto as verbas decorrentes das bilheterias estavam em situações precárias e o império de Walt Disney estava à beira da falência. Sendo assim, a Disney apostava em filmes-pacotes de baixos custos, que são longas metragens compostos por diversos curtas. É nesse momento que a fábrica de sonhos apostava em um novo longa metragem.

Nas décadas de 40 e 50, era comum acreditar que "filmes de meninas" protagonizados por princesas eram a solução para qualquer crise na indústria cinematográfica. Não é que deu certo? Cinderela foi o maior sucesso da Disney desde Branca de Neve (primeiro longa de princesa) e é a princesa mais popular e famosa no cartel de princesas da Disney atualmente.

Depois de muita divagação entre "Cinderela" e "Alice no País das Maravilhas", a história vencedora para ser lançada foi a da princesa do sapatinho perdido. Walt Disney escolheu a versão de Charles Perrault (digo versão, porque Cinderela tem quase 3.000 versões espalhadas pelo mundo). Ao contrário do que se imagina, não foi a adaptação dos estúdios Disney que retiraram as partes mais macabras ou pagãs do conto como, por exemplo, as irmãs mutilarem os pés para caber no sapatinho, os passarinhos comendo os olhos das irmãs, o rei sentenciando a madrasta e suas filhas a dançarem até a morte com sapatos de ferro em brasa ou até mesmo Cinderela falando com sua falecida mãe ou a insinuação de que a fada madrinha fosse o espirito da mãe morta retornando para ajudá-la, mas essas passagens foram sendo diluídas nas versões que foram surgindo, portanto a versão escolhida não havia essas referências.

Bastidores das gravações de Cinderela

Com a crise financeira, o filme foi o mais cuidadosamente planejado pelo estúdio até aquele momento. Cerca de 90% das cenas foram filmadas com atores reais antes do filme ser animado, mas esse método de utilização do live-action não foi empregado para melhorar a qualidade da animação como nas produções anteriores a guerra e, sim, para torná-la mais barata e reduzir os custos da produção, nada em Cinderela foi imaginativo, as cenas foram apenas controladas seguindo fielmente um roteiro detalhado e as características de pessoas reais.

A história é aquela que todos conhecemos desde sempre: Uma garota da aristocracia, órfã de mãe e com um pai amoroso que decide se casar novamente para que a menina possa ter um amor materno. Porém, toda criança já cresce sabendo, amor e madrasta são duas coisas que não se misturam em contos de fadas. Após a morte do pai, a madrasta e suas duas filhas, Anastacia e Drizela, passam a tratar Cinderela como empregada. A garota segue crescendo sendo gentil e amável e possui a companhia dos animais da casa e dos arredores. Um belo dia, o rei anuncia um baile que seria dado com o objetivo do príncipe escolher uma noiva, todas as garotas do reino foram convidadas, mas a madrasta, simplesmente, impede que Cinderela compareça ao tão sonhado baile.


Aí, surge a fada madrinha, com sua varinha de condão, transformando o sonho da nossa gata borralheira em realidade com um passe de mágica, mas alertando que a menina deve voltar antes da meia noite, pois o feitiço tinha "prazo de validade". Chegando no baile, o príncipe a vê e se apaixona a primeira vista, eles passam a noite dançando, até que o relógio começa a badalar a meia noite e a garota foge, sem ao menos dizer seu nome e perdendo um de seus sapatinhos de cristal. E é exatamente esse sapatinho que fará com que a nossa princesinha seja encontrada pelo seu príncipe encantado, case-se e viva feliz para sempre.


Analisando o longa mais profundamente, podemos notar os traços do tempo em que a história está inserida. Antes de colocar as minhas impressões sobre a narrativa, quero deixar claro que sou extremamente apaixonada pelos clássicos Disney e não acredito que os longas de princesas sejam uma manobra machista para alienação das meninas, mas é necessário apontar alguns aspectos que se fazem presente na ideologia da animação e do próprio conto podendo ilustrar a imagem da mulher no tempo de sua produção.

Começando com a relação entre as personagens femininas do filme, a história torna legítima a ideia de que as relações entre as mulheres são carregadas de inveja, principalmente quando falta beleza e juventude. A madrasta passa a maltratar Cinderela por conta de sua beleza, coisa que suas filhas passam longe de possuírem. É necessário apontar, também, o esteriótipo de beleza reforçado no longa, Cinderela é loira, branca, dos olhos azuis e magra, em contraponto com suas meio-irmãs que são morena e ruiva. É a imagem que vende e se torna o padrão de beleza reforçada em outros longas do estúdio e nas produções cinematográficas de Hollywood.

Da esquerda para direita, Anastasia, Madame Tremaine e Drizela
Outro ponto são as qualidades retratadas de Cinderela, além de ser extremamente bonita, bondosa e doce, as virtudes da garota são relacionadas aos afazeres domésticos. Ela é dedicada a cuidar da casa, costurar, cozinhar, lavar, passar, alimentar os animais. E por falar nos animais, entramos em outro ponto, podemos distinguir o gênero deles apenas pelas roupas, ou seja, as personagens femininas não possuem o traço de feições femininas, cílios e lábios mais grossos para representar a feminilidade, tanto que quando Cinderela encontra o Tatá, um ratinho preso na ratoeira, ela tenta o vestir com um vestido.

Porém, como acontece com a própria mocinha, as personagens femininas possuem o papel apenas doméstico, são as ratinhas e passarinhas que irão costurar o vestido de baile para Cinderela, ajudar a moça a se vestir quando o dia nasce, entre outros afazeres. Mas, no caso dos personagens masculinos, são eles que irão salvar a nossa princesinha, por exemplo, quando os ratinhos recuperam a chave do sótão onde Cinderela está trancada ou quando o cachorro afugenta o gato que está atrapalhando os ratinhos a ajudarem a gata borralheira.

Mais um ponto, o casamento como compensação e o fim de todo o sofrimento, o príncipe encantado passa a ser apenas um passe para a felicidade, a certeza de que a garota terá um futuro feliz para sempre. Depois de sofrer todas as atrocidades que sofre na mão da madrasta, é o príncipe que trará toda a felicidade que a menina vinha esperando. O príncipe é tão nulo e serve apenas como uma compensação para toda a maldade vivida pela menina, que nem ao menos o seu nome nos é revelado. Ele é figurativo, representando apenas a felicidade matrimonial. Porém, é interessante notar que mesmo o príncipe não salvando Cinderela diretamente, a menina é socorrida por personagens masculinos.

Cinderela e o Príncipe
Mesmo com todos esses traços seria impossível não dizer o quanto a animação é encantadora, são traços que devem ser apontados e interpretados como representações de um tempo passado, mas que a narrativa em si traz uma mensagem muito mais bonita para as nossas crianças como, por exemplo, ser corajosa e permanecer gentil faz toda a diferença. Ser corajosa e permanecer gentil fez com que a mulher ganhasse mais espaço e fará com que muitas outras ganhem cada vez mais. Cinderela passa também a mensagem clara de que a beleza interior é o que realmente prevalece e importa. Em um mundo onde gestos de empatia são quase raros, é necessário tanto para criança quanto para nós, adultos, encontrarmos um mundo onde inspire coragem e gentileza. Afinal, onde há gentileza, há bondade e onde há bondade, há magia. E quem nunca sonhou com um mundo cheio de magia, fadas madrinhas e onde vivêssemos felizes para sempre, não importando qual fosse o nosso passe para a felicidade?





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