[Re]Leitura - Tchau | #BEDA4

18:01


Lygia Bojunga transita de maneira doce e fluída por temas densos do cotidiano através de uma aura real e fantástica.

Nome forte, temas complexos e uma obra direcionada ao público infanto-juvenil. Como falar sobre a desigualdade social para crianças de 10, 11, 12 anos? E quem sabe, talvez, sobre como os adultos cometem loucuras por uma paixão?

Numa mistura entre o realismo e o fantástico, que por sinal remete muito ao estilo de escrita de Gabriel Garcia Marques, em sua única obra de contos, Lygia Bojunga traz para a pauta do universo infanto-juvenil quatro temas que permeiam o cotidiano do convívio em sociedade: paixão, amizade, ciúmes e necessidade de criar.

Com maestria, a autora tece uma narrativa sensível, carregada de fantasia e uma cruel dose de realidade. Apesar de escritos em terceira pessoa, cada conto apresenta a visão de apenas um dos personagens que são introduzidos às histórias. Elas também não são longas, retratam um fragmento da vida de seus personagens. Não dá muitas explicações, apenas os apresenta, relata o problema, um momento de suas vidas e vão embora.

É possível até mesmo divagar se essa não é a razão para a obra se chamar "Tchau". Lygia nos conta fragmentos efêmeros, que em um piscar de olhos acontecem, deixam a sua mensagem e se vão com um simples tchau.

Os quatro contos também incomodam, provocam a curiosidade característica da idade, instigam o pequeno leitor a se questionar, a questionar a realidade em que está inserido. Estimula a empatia, a superação e a criatividade.


Lembro quando conheci "Tchau". Foi um professor de português que me apresentou o livro. Tinhamos que ler o conto "O Bife e a Pipoca". O devorei em 1 hora, no máximo. Lembro que na época uma das cenas finais do conto, a cena que representa a pipoca, ficou gravada em minha mente. E eu não entendia o porquê daquela realidade, daquele universo ao qual Tuca, um menino que vive em uma comunidade no Rio de Janeiro e ganha uma bolsa de estudos em uma escola particular, estava inserido.

O professor organizou uma peça teatral do conto para ser apresentada na feira cultural da escola. Fui escolhida para ser a mãe de Rodrigo, uma mulher fina, da nata da sociedade carioca. Lembro que uma coleguinha negra foi escolhida para ser a mãe de Tuca.

E meu primeiro senso de desigualdade social foi incutido. Logo após a apresentação da peça, meu professor me presenteou com o livro. Disse que valeria a pena a leitura dos outros contos. E foi assim que Lygia Bojunga me ganhou aos 11 anos de idade. Obrigada, professor!

Entre as quatro histórias, as duas primeiras são as mais densas. O primeiro conto, que intitula o livro, coloca em debate a posição da mulher dentro da instituição do matrimônio e seu papel como mãe, mas também como uma criança lida com a separação e o abandono.

Já o segundo, "O Bife e a Pipoca", retrata a desigualdade social que muitas pessoas enfrentam nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, coloca em evidência o trabalho infantil e faz uma dura crítica a meritocracia.

Delicada e com uma linguagem acessível, "Tchau" é uma obra que convida crianças a discutirem e entenderem questões que os adultos enfrentam. Incute mensagens profundas, estimula a formação de um senso crítico e prepara os pequenos para uma vida em sociedade, saturada de desafios retratados em suas páginas.

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4 comentários

  1. Esse livro é maravilhoso! Li na época da escola para uma aula de português. O conto que mais me marcou foi o primeiro, o da garotinha. O livro todo é muito bom e gostoso de ler. Me emocionei muito lendo! Beijos

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  2. Nossa Bárbara como você escreve bem! Parabéns pela resenha... Uma das melhores resenhas que já vi sobre o livro Tchau. Sou apaixonada com esse livro e com as histórias dele! Belo resgate do clássico. Bjo! Thata

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  3. Gente! Desigualdade social retratada em um livro nacional? Preciso ler urgente! Parece ser muito bom e amei o título do livro. É bom que cada vez mais pessoas possam retratar essa triste realidade do nosso cotidiano, ainda mais falando sobre trabalho infantil. Adorei a resenha

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  4. Que legal ainda não li nenhum livro deste escritor, achei bem interessante o tema que ela abordar e ainda mais desta maneira para um faixa etaria que veem tud de maneira diferente. Beijos

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