[Artigo] Lembrai, lembrai do primeiro de abril | #BEDA2

18:50


"Lembrai, lembrai do cinco de novembro
A pólvora, a traição, o ardil
Por isso não vejo como esquecer
Uma traição de pólvora tão vil"

Alguns podem se lembrar de onde esse poema foi retirado, mas a maioria, talvez, não se dê conta. "V de Vingança". Para quem nunca assistiu, o longa, lançado em 2006 no Brasil, é uma distopia, situada em Londres no ano de 2020 (não muito longe, não acham?!).

Ele conta a história de Evey, uma garota da classe trabalhadora, perseguida pela ditadura atual, que vai passar por algumas transformações para se libertar. No decorrer da trama, somos apresentados a V, um carismático defensor da liberdade que está disposto a se vingar daqueles que o usaram como cobaia em experiências, torturando-o e desfigurando-o. Todo o enredo prepara o espectador para uma busca desesperada pela captura de V antes que ele desencadeie uma verdadeira revolução.

Um dos aspectos que mais me fascinam na construção de narrativas, sejam elas escritas ou audiovisuais, é a capacidade que possuem de convidar o outro à uma reflexão sobre o mundo a sua volta. Inevitavelmente, esse é o momento de refletirmos sobre o atual contexto brasileiro.

Esse poema, por exemplo, pode muito bem ser retratado nos dias atuais da política brasileira: "Lembrai, lembrai do PRIMEIRO DE ABRIL/ A pólvora, a traição, o ardil/ Por isso não vejo como esquecer/ Uma traição de pólvora tão vil".

Não há como negar o modo como a história se repete. O povo brasileiro viu acontecer em meados de 1964, na madrugada entre 31 de março e 01 de abril (agora parafraseando a incrível J.K. Rowling) a instauração de um tempo sombrio na história nacional.

A perca de liberdades, a tortura, os desaparecimentos, a repressão, os assassinatos. A demonização de setores da sociedade para conservação e manutenção de privilégios para uma pequena parcela da mesma.

Polícia torturando manifestante durante a Ditadura Militar
O problema do brasileiro? A memória curta. Esquece-se de suas mazelas, de suas lutas e conquistas. E como diria um grande professor meu: "Qualquer semelhança, não é mera coincidência". O próprio V nos diz "Não existe coincidência, apenas a ilusão de uma coincidência".

O Brasil vive hoje um clima bem parecido do que viveu-se em 1964. Primeiro, a radicalização política. Ou você é contra ou você é a favor, não existe meio termo, não existe diálogo.

Há algum tempo li um artigo intitulado: "Pintei-me de petista no pobre diálogo político do Brasil". Nesse texto, Fernando Risch, explicita a radicalização do cenário político brasileiro, como nos vestem com as fantasias que nós mesmo não queremos vestir (em suas palavras, "comunistas versus golpistas"), mas são necessárias a partir do momento que nos impomos para mantermos imaculados os nossos ideais.

É preciso dar algum crédito ao autor quando comenta que "Nunca se precisou conversar tanto e tão francamente no Brasil, com propostas de diálogos abertos e moderados". É necessário deslocar nossos discursos dos extremismos e encontrar um meio termo, onde cada uma das partes encontre o consenso.

Segundo, a campanha midiática. A exemplo do que ocorreu na própria Ditadura, a mídia foi essencial para a formação do contexto que encontra hoje a sociedade. Seletividade de informação aliada a falta de senso crítico, criou uma massa de pessoas que apenas replicam o que é escolhido por terceiros para que todos saibam.

Onde está a repercussão dos movimentos contra as reformas da previdência e a trabalhista? Onde estava a mídia na cobertura do escândalo da merenda em São Paulo? Toda a repercussão sobre a operação carne fraca, mas onde estão realmente os dados? Quantas amostras de carne foram encontradas nas condições divulgadas? Foi um caso isolado ou é uma prática corriqueira?

Existe aqui um cenário propício ao caos. Pessoas se digladiando nas ruas da cidade, inflamados discursos de ódio, a rachadura da sociedade. As pessoas não conseguem mais enxergar o quanto estão sendo manipuladas e participando das manobras políticas de outros partidos com o único e exclusivo interesse de benefício próprio.

"Aaah, eu odeio x partido porque ele é ladrão", mas já pararam para pensar que praticamente todos os outros também estão envolvidos em inúmeros esquemas, mas que a mídia não divulga?

Evey representa muito bem a sociedade brasileira hoje. Ela sabe que tem algo errado, ela sente. Mas Evey tem medo de agir, ela acredita no velho ditado que diz que "uma andorinha só não faz verão". Para ela, é preciso abrir mão de alguns direitos básicos, como a liberdade, para estabelecer a ordem.

Passeata dos cem mil contra o regime militar
A literatura é capaz de incutir muitos valores no ser humano, como já foi discutido por aqui. Nesse momento, o mais significativo dele é a construção de um ser crítico. É preciso derrubar as falácias, as mentiras, os discursos de ódio.

É necessário que seja estabelecido o verdadeiro conceito de abertura em nossa jovem democracia. Um debate aberto, com respeito ao pensamento divergente.

Assim como V, um exímio amante da literatura e de clássicos do cinema, tenho convicção e esperança que o acesso democrático à cultura é o ponto de partida para reconstruirmos a nossa soberania. E claro, jamais esquecer do primeiro de abril, pois a ideologia que obscureceu a nossa história está apenas à espreita para atacar novamente.

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10 comentários

  1. O problema é que hoje em dia as pessoas focam tanto na discussão de quem está certo ou errado que os problemas principais são deixados de lado,nenhuma política é perfeita,sabemos disso,mas o Brasil está longe demais do ideal e só mudará quando nós mudarmos também.
    Acho que todo mundo deve ver V de Vingança,aliás,é um dos filmes que eu mais gosto de assistir,e perceber que não somos tão diferentes disso.
    Amei seu texto :D
    Beijos ^.^

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  2. Muito bem escrito Bárbara! A gente tem que aprender e conhecer os erros do passado pra não repercutir no futuro. Adorei o texto :)

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  3. Confesso que não vi esse filme, puramente por preguiça, mas sei que é necessário e utilizado em várias referências, tanto em textos como na cultura em si. Seu texto está muito bem escrito e aponta questões cruciais sobre o que a sociedade vem se tornando, uma vez que aparentemente não é possível ter nenhuma discussão social saudável que não gere uma briga de lados.

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  4. Não lembro bem se apenas ouvi falar de V de Vingança ou se também o assisti, tenho uma memória bem fraca. E por isso, vou vê-lo assim que estiver com tempo, seu post me fez refletir sobre tantas coisas. Muito bom o post!

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  5. Concerteza, ótimo texto e reflexão, e estamos em um tempo difícil, e temos que ir a luta, e como diz no filme v de vingança o governo tem que temer o seu povo não o povo temer o seu governo.. e na lei diz todo poder emana do povo

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  6. Meu Deus, estou surpreendida com você mulher. Isso tem que ser compartilhado, mostrado ao povo, pelo amor de DEUS! Parabéns, sucesso!!

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  7. Bem interressante sua postagem em
    muitas pessoas deviam ver isso gostei
    muito do que você falou
    parabéns sucesso.

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  8. Ótimo texto! Bem escrito e nos faz refletir sobre os erros. Nunca vi V de vingança, mas estrará para a minha lista em breve! Beijos e sucesso!

    www.gotadechampagne.blogspot.com

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  9. A questão de que o que mais está em pauta é a guerra entre a esquerda e a direita é muito real. Parece que nada se faz, apenas dois lados gritando e o caos acontecendo. Eu realmente não acredito mais na política brasileira. O mínimo que posso fazer é votar de forma coerente escolhendo algo que, se possível, possa fazer algo pelo Brasil.

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  10. Gosto muito do filme V de vingança. Seu texto esta perfeito nos faz refletir sobre o que esta acontecendo. Parabéns flor, sucesso para ti. bjão

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